sábado, 15 de junho de 2019

Marcação a mercado e a miragem da renda fixa


Olá pessoal,

  Hoje irei escrever sobre um assunto que vejo muito em alguns canais no youtube que talvez confunda a cabeça daqueles que estão iniciando agora e precisa ser esclarecido. Trata-se da marcação a mercado dos títulos de renda fixa e a miragem gerada por esses ganhos de curto prazo. Quem é mais conservador, mas ainda está dando os primeiros passos, se ilude facilmente com esse tipo de informação. Vou explicar por que isso acontece.
  Marcação a mercado é a atualização diária do preço de um ativo de renda fixa ou cota de um fundo de investimento. Essa marcação permite ao investidor saber quanto receberia hoje se vendesse aquele título ou aquela cota. Sendo assim, caso o investidor tenha adquirido um título público IPCA + 7% com vencimento em 2035 no ano de 2015, no auge da crise do governo de Dilma Roussef, cuja taxa Selic atingiu o pico de 12,25%, e ele resolvesse resgatá-lo hoje, onde esse mesmo título está precificado em IPCA + 3,5%, esse investidor poderia ter uma rentabilidade de IPCA + 20% ou 30% ou até mesmo 40%. Percebam que se trata de uma rentabilidade digna de renda variável. Diante desse quadro, o conservador tira conclusões apressadas e investe 100% do seu patrimônio em renda fixa. Mas vamos analisar os fatos. Esse tipo de ganho na renda fixa acontece apenas no Brasil e em outros poucos países, como a Rússia, onde os juros reais são os maiores do mundo. Mas se formos fazer uma retrospectiva dos juros reais no Brasil de 20 anos para trás, perceberemos que esses juros estão diminuindo e a tendência é diminuir mais ainda. Basta acompanhar a queda da taxa Selic ao longo de todo esse tempo. Então, consequentemente, essas oportunidades de ganho com a marcação a mercado da renda fixa se tornarão mais raras com o passar do tempo. Talvez essa oportunidade gerada pelo governo de Dilma Roussef seja a última. E vamos ser francos aqui, para obter ganhos desse tipo o investidor conservador também precisa estudar um pouco de Economia, saber as perspectivas da taxa de juros, saber escolher os títulos públicos adequados para os seus objetivos, saber calcular o impacto da variação da taxa na rentabilidade do título de acordo com os respectivos vencimento e rentabilidade contratados, etc. Então, se for estudar mesmo, que estude para obter ganhos muito maiores na renda variável.
  Além disso, existe outro detalhe da renda fixa que os conservadores não se atentam e até já comentei sobre isso em um dos meus primeiros artigos aqui no blog, intitulado “Renda Fixa e a Inflação”, publicado em Julho de 2018 (confiram). O IPCA e outros índices inflacionários divulgados pelo IBGE e outras instituições, além de poderem ser “maquiados”, eles também podem não representar a real inflação da maior parte das famílias brasileiras. Isso acontece porque esses índices “oficiais” divulgados na imprensa são meramente percentuais médios de uma cesta de bens e serviços, levando em consideração várias famílias de diferentes classes sociais e de diferentes regiões. Por mais que as instituições de censo se esforcem na coleta dos dados amostrais, o desvio-padrão “real” desses índices pode ser muito maior do que o divulgado. Se a sua família tem uma renda de alto padrão, tem filhos em escolas particulares, tem plano de saúde para toda a família, tem carro importado que bebe muita gasolina ou diesel, costuma viajar para o exterior todo ano e tem mais de um imóvel, como uma casa de veraneio ou uma sala comercial, e ainda sobra um dinheiro mensalmente para investir TODO na renda fixa, sinto muito dizer, mas você está perdendo poder de compra ao longo do tempo. Então, quando você se surpreender com uma rentabilidade de IPCA + 20 ou 30% em um eventual resgate neste mês, lembre-se que esse IPCA de 3 a 4% ao ano divulgado pelo IBGE desde 2017 talvez não seja o “seu IPCA”. Talvez ele seja de 5 a 15%, por exemplo. E mesmo que você ainda tenha um ganho real, não se iluda, pois esse tipo de ganho não acontece sempre na renda fixa.
    Enfim, não estou aqui querendo desencorajar a investir na renda fixa, mas apenas lembrar que não existe investimento melhor ou pior, apenas investimento com vantagens e desvantagens. O grande segredo é saber filtrar as informações recebidas dos diversos canais de conhecimento e a partir daí ter a sabedoria suficiente para formatar uma carteira bem diversificada e ganhadora!

Abraços,
Seja Independente


sábado, 8 de junho de 2019

Que tipo de investidor você é?


Olá pessoal,

  Hoje irei escrever sobre um assunto de suma importância para os investidores e de certa forma envolve esse meu processo de amadurecimento como investidor. Esse amadurecimento vem apenas com o tempo, após muita análise dos aspectos macroeconômicos a nível nacional e internacional, leituras diárias, conversas em grupos de investidores que estão no mesmo processo e outros meios que nos ajudam a melhorar a cada dia.
  E então, que tipo de investidor você é? Eu poderia escrever aqui sobre várias ideias, conceitos e estratégias para responder essa pergunta. Mas eu correria o risco de ser prolixo e deixar o artigo muito extenso e cansativo, e sem transmitir a mensagem final de forma clara e sucinta. Portanto, eu decidi escrever tomando como ponto central um trecho do livro O Investidor Inteligente, e que inclusive eu citei anteriormente num artigo sobre esse mesmo livro intitulado de “Livro O Investidor Inteligente, do autor Benjamin Graham”, em 16 de setembro de 2018 (confiram lá). O trecho diz o seguinte: a política de investimento depende em primeiro lugar de escolher o papel defensivo (passivo) ou o empreendedor (ativo). O ativo deve ter um conhecimento suficiente para justificar encarar suas operações de investimento como equivalentes a um negócio empresarial. Não há espaço nessa filosofia para um meio-termo ou uma série de gradações entre o status passivo e ativo. Conforme eu falei nesse artigo anterior, eu considero esse trecho o mais intrigante do livro, pois o autor coloca “o leitor contra a parede” e o aconselha a tomar uma posição no tocante à sua política de investimentos. Hoje eu concluo que a minha posição é ter um papel defensivo (passivo), e eu vou explicar o motivo. Quem está lendo o artigo e discorda do motivo que irei expor aqui, peço por gentileza que comente no espaço reservado para comentários logo abaixo do artigo, pois isso contribui muito para o enriquecimento do conteúdo abordado e de certa forma irá ajudar no processo de amadurecimento de outros investidores que visitam esse blog.





  No meu entendimento, o investidor empreendedor (ativo) é aquele que já tem vários anos de estudo, na teoria e na prática, várias certificações do mercado financeiro, como CNPI, CPA, CFA, CFP, e o mais importante, já se machucaram muito colocando o conhecimento em prática, tendo prejuízos após análises equivocadas de valores mobiliários, e não apenas com o dinheiro dele, mas com o dinheiro de milhares de outras pessoas, ou seja, é um profissional acostumado a investir até bilhões de reais em diversos investimentos arriscados. É o tipo do investidor que sabe tudo sobre Economia, Contabilidade e Mercado Financeiro. Ele tem uma ideia clara para onde vai a taxa de juros e o dólar, sabe analisar ao nível mais analítico possível todas as demonstrações financeiras, inclusive enxergar problemas encontrados nas entrelinhas das notas explicativas e relatórios de auditoria que podem gerar problemas futuros para os acionistas minoritários, sabe analisar a governança corporativa ao conhecer a estrutura societária (quem são os sócios controladores), os membros do conselho de administração, os membros da diretoria e as políticas de governança implementadas pela empresa, como o compliance, por exemplo. Então, meus caros colegas, não é para qualquer um. Isso demanda muito tempo e dedicação. Para quem está começando agora e já tem uma carreira profissional em outra área que não a dos investimentos, se torna inviável adotar um papel empreendedor.
  Mas é bom lembrar que não há nenhum demérito em assumir o papel defensivo, aliás pode até ser mais vantajoso para o investidor individual, que são a grande maioria quando se fala em investimentos. Digo isso por que o investidor empreendedor, nem todos, mas muitos deles, além de levarem tempo para adquirir conhecimento e experiência, também contam com muita responsabilidade, cobrança e operam com muitas limitações, como é o caso clássico dos gestores de fundos de investimentos. Dependendo da política de investimento do fundo, eles não podem fazer grandes “movimentos”, pois muitos desses fundos, principalmente os abertos, sofrem resgates de seus cotistas, e sendo assim, são obrigados a alocar parte dos recursos aportados em renda fixa de forma a “provisionar” esses resgates, diminuindo consequentemente a performance do fundo. Mas voltando ao ponto central, no livro supracitado, o autor destaca que o investidor defensivo deve alocar metade da carteira em renda fixa e a outra em renda variável. Mas cabe uma ponderação aqui. Não necessariamente essa seja a alocação mais certa, pois isso depende muito do nível de tolerância ao risco do investidor defensivo. O investidor pode alocar de 20 a 40% da carteira em renda fixa e a outra parte em renda variável ser sabiamente diversificada. Na verdade, não existe uma alocação estática ao longo do tempo, ela sempre vai variar de acordo com vários fatores externos e internos.
  Enfim, esse posicionamento no tocante à política de investimentos não vem de uma hora para outra, mas apenas com o passar do tempo. Alguns já assumem um posicionamento logo no início, outros assumem depois de certo tempo, como foi o meu caso. É muito importante enxergar as suas limitações, isso é essencial para quem quer sobreviver e continuar ganhando!

Abraços,
Seja Independente


sábado, 25 de maio de 2019

Não superestime as suas competências!


Olá pessoal,

  Hoje irei escrever quase que uma autocrítica sobre a minha conduta como investidor e que vale como uma dica preciosa para todos os investidores iniciantes como eu. É essencial não apenas reconhecer o seu círculo de competência, mas também não superestimá-lo. Vou explicar com maiores detalhes essa dica. O que quer dizer exatamente círculo de competência? É o nível de competência que você possui para exercer determinadas profissões, funções, atividades, hobbies e afins. É de suma importância que o indivíduo tenha a humildade para reconhecer as limitações de suas competências e agir como tal. Caso contrário, sofrerá as graves consequências de uma má conduta fora do seu círculo de competência.



  No meu caso em particular, o que foi que aconteceu? No início da minha formação de carteira, deixei a empolgação, a ansiedade e a ganância tomarem conta da minha conduta e me expus demais às ações, sem uma diversificação adequada em outras classes de ativos. Após analisar algumas empresas, achei que tivesse a mesma capacidade de análise dos melhores analistas do país e, sendo assim, investi somas relevantes em algumas ações, achando que estava fazendo um ótimo negócio, mas sem enxergar os riscos. Ora, se até mesmo para os melhores analistas ainda é difícil, avalie para os amadores. Já assisti vários vídeos no youtube de educadores financeiros, alguns analistas profissionais, outros não (apenas entendidos no assunto), sobre alguns ativos polêmicos, como é o caso da Cielo, onde cada um tinha a sua opinião a respeito. Uns alegavam que a Cielo tinha perdido os seus fundamentos (a maioria), e outros não. Percebam que até para quem é profissional mesmo e entende do assunto há vários anos é difícil ter um entendimento pacífico, sem ressalvas, sem entrelinhas, sem detalhes, sem vieses.



  É importante lembrar aos colegas que por mais que vários livros tenham sido lidos e recursos financeiros tenham sido recebidos para aportar, o mais importante é estudar e ir começando aos poucos, investindo mais em renda fixa com liquidez (tesouro Selic), em algumas ações no mercado FRACIONÁRIO e em pequenas cotas de fundos imobiliários. À medida que o tempo de estudo for aumentando e a bagagem de conhecimento for crescendo, é hora de aprender a balancear/calibrar a carteira, investindo mais em alguns ativos e menos em outros. Mas ainda assim com muita parcimônia, investindo recursos miúdos. Também aconselho a se preocupar mais em formar uma reserva de emergência nessa fase, principalmente para quem pretende ter filhos, mas ainda não tem.
  Enfim, estou tendo algumas dificuldades agora para calibrar a minha carteira. Nada que seja grave, mas que requer um pouco mais de cuidado. Como eu disse antes, esse artigo serve como uma autocrítica e também como uma dica valiosa para aqueles que estão começando a investir. O mais importante é nunca deixar de aprender, reconhecer os erros e aprender com eles e continuar levando consigo todas as lições aprendidas ao longo do caminho.

Grande abraço a todos,
Seja Independente


quarta-feira, 1 de maio de 2019

Reforma desidratada e a diversificação!

Olá pessoal,

  Hoje irei escrever com base numa matéria publicada hoje no site Infomoney (ver aqui), onde o deputado Paulinho da Força, líder da Força Sindical, afirma o seguinte: “O que estamos discutindo dentro do Centrão é que precisamos fazer uma reforma que não garanta a reeleição de Bolsonaro”. Particularmente eu acho surreal ler uma notícia dessas em pleno Feriado do Trabalhador, que é o que mais sofre com esse atraso da Reforma. É estarrecedor e uma prova incontestável de que historicamente no nosso país, a classe política sempre se preocupou em 1ª lugar com o poder e não com o povo. Quem lê os meus artigos vai entender que essa notícia corrobora tudo o que eu vinha falando em outros artigos sobre o futuro do Brasil, como “Analisar os fundamentos da economia é muito importante!” e “Não sejamos otimistas demais!”.

Deputado Paulinho da Força

  Para quem acompanha a política brasileira, assim como eu, sabe perfeitamente que o grupo partidário chamado “Centrão” tem extrema relevância para a Reforma da Previdência, pois é um grupo que conta com vários partidos, tendo a maior quantidade de parlamentares dentro do Congresso Nacional. Portanto, se esse grupo resolver adotar essa ideia de desidratar a Reforma a fim de inviabilizar uma eventual reeleição de Bolsonaro ou algum outro candidato ligado a ele, eles vão conseguir. E quem vai perder com isso é o povo brasileiro. Porque na verdade o que eles, parlamentares, estarão fazendo, é adiar por mais alguns anos a derrocada da economia brasileira ou como diz o Ministro Paulo Guedes, adiando a queda do avião com todos a bordo, inclusive com as futuras gerações. Essa Reforma já deveria ter sido feita há vários anos atrás, é tanto que os ex-presidentes petistas Lula e Dilma afirmaram durante os seus respectivos mandatos que seria necessária uma Reforma da Previdência. Pois é, logo eles!
  Diante de tal risco iminente batendo à nossa porta, é necessário que os investidores apertem os cintos e já comecem a calibrar as suas carteiras diversificando em vários ativos diferentes, como eu tenho dito nos artigos anteriores. Os fundos imobiliários, a meu ver, são a principal alternativa para diversificar a carteira de renda variável para quem está começando, pois são menos arriscados e distribuem rendimentos mensalmente, permitindo ao investidor reinvestir nos fundos de forma mais frequente. Não é de se espantar que o brasileiro, historicamente, sempre investiu em imóveis físicos, pois não são ativos arriscados como as ações e na maioria das vezes se valorizam no longo prazo, sem contar a opção de aluga-los para auferir rendimentos mensais. Portanto, sempre foram um porto seguro para os brasileiros que nunca tiveram familiaridade com a Bolsa de Valores e ao mesmo tempo sabiam que nunca poderiam confiar numa estabilidade político-econômica brasileira. Existe ainda uma outra alternativa de diversificação, mas não para aumentar patrimônio e sim para proteger a carteira, que são os fundos cambiais. São ativos muito voláteis e devem ser usados apenas para se proteger de uma eventual crise nacional gigantesca. Esses fundos são como uma reserva de valor local e por isso não devem compor mais do que 1% do valor total da carteira. No caso da renda fixa, mais precisamente os títulos públicos, não há garantia nenhuma de que eles trarão retorno para o investidor em uma eventual derrocada total da economia brasileira, como a que nós vimos na década de 80 e início de 90. Eles têm como funções diminuir o risco sistêmico da carteira e constituir reserva de emergência. Mas não podem proteger o investidor de uma inflação galopante, ou seja, não podem garantir o poder de compra do investidor nesse caso.
  Portanto, meus nobres colegas, não se empolguem tanto com esse novo governo liberal e conservador. O Executivo não governa sozinho e mesmo que governasse não conseguiria arrumar a casa em apenas quatro anos. Não esperem que haja uma mudança abrupta na economia nacional e a bolsa se valorize exponencialmente em tão pouco tempo. A mudança é lenta e gradual. Enquanto isso, vamos estudando muito e lendo sobre vários assuntos concernentes aos investimentos todo dia, para que possamos obter êxito no final dessa maratona, olhar para trás e dizer: “valeu a pena”.

Grande abraço a todos,
Seja Independente

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Aposentadoria por idade


Olá pessoal,

  Seguindo essa estratégia de analisar tópicos específicos da Reforma da Previdência que impactam a vida dos brasileiros, vou falar sobre outro tópico muito importante que é a aposentadoria por idade.
  Conforme artigo 16 da PEC da Reforma da Previdência, “o segurado filiado ao regime geral de previdência social até a data de publicação desta Emenda, poderá aposentar-se por idade quando preencher, cumulativamente, as seguintes condições: 60 (sessenta) anos de idade, se mulher, e 65 (sessenta e cinco), se homem; e 15 (quinze) anos de contribuição”. Antes de qualquer coisa, é importante esclarecer sobre o aumento da expectativa de vida dos brasileiros. Na década de 60, a nossa expectativa de vida era de 48 anos. Hoje é de 76 anos. Mas não é apenas isso. Essa estatística leva em consideração todas as mortes independentemente da causa do óbito, ou seja, não levam em consideração apenas as causas naturais, mas sim as causas não naturais, como homicídios e acidentes de todos os tipos, que podem acontecer em qualquer momento da vida do indivíduo. Então se atermos apenas as causas naturais, essa expectativa aumenta ainda mais, pois é natural que as pessoas mortas nesse grupo sejam mais velhas. Até mesmo aquelas pessoas acometidas por doenças degenerativas conseguem estender um pouco a sua vida laboral seguindo tratamentos médicos, retardando a concessão de aposentadoria por invalidez. Para termos uma ideia, as mortes causadas por armas de fogo ficaram em 5ª lugar num ranking com as 10 maiores causas de morte no Brasil segundo dados do Ministério da Saúde (fonte).
  Há quem pondere esse aumento da expectativa da vida afirmando que muitas profissões, cujos fatores inerentes a ela não permitem ao trabalhador laborar até certa idade, necessitam de uma atenção especial por parte do legislador, como é o caso dos trabalhadores da construção civil, da indústria mineradora, dos trabalhadores rurais, dos agentes de segurança pública e das forças armadas, e outros constatados como insalubres ou perigosos. Concordo que certas categorias profissionais se enquadram em situações excepcionais e por isso devem ser excluídos dessa exigência prevista no artigo 16 da PEC. A dificuldade para os trabalhadores braçais da construção civil, das indústrias e do meio rural produzirem e auferirem renda é latente. Quando chegam a uma certa idade, os problemas decorrentes do esforço repetitivo começam a aparecer, incapacitando-os para o labor. Sem contar os intervalos de tempo sem contribuição previdenciária decorrentes do desemprego. Enfim, entendo a dramaticidade da situação dessas categorias. Para amenizar esse sofrimento, vejo apenas uma solução: o governo investir em educação de qualidade para que boa parte das futuras gerações não seja obrigada a compor essas categorias. Para o caso dos agentes de segurança pública e das forças armadas, não tem muito o que fazer em relação a questão da idade, pois a idade reduz as condições físicas mínimas exigidas para o exercício da função. Mas faço aqui uma ressalva em relação aos salários de aposentadoria. Diferentemente das outras categorias citadas, esses profissionais tem estabilidade no cargo e recebem salários relativamente maiores. Portanto não devem receber salários integrais maiores do que o teto do regime geral. Se quiserem ter uma aposentadoria mais gorda, que contribuam por fora através de fundos de pensão criados pela própria instituição ou de previdências privadas abertas em instituições financeiras. Ou melhor, que aprendam a investir por conta própria.
  Agora, excetuando-se essas categorias citadas acima, todos devem navegar no mesmo barco, ou seja, todas devem obedecer aos mesmos critérios de contribuição e idade e se submeter ao teto do regime geral. É de suma importância que todas as injustiças decorrentes desse sistema previdenciário perverso do Brasil sejam extirpadas, como se fossem células cancerígenas que se alastraram por todo o organismo ao longo de vários anos. É necessário extirpar esse câncer maligno que só cresce com o passar do tempo, sob pena de voltarmos a experimentar aqueles tempos de inflação galopante, desemprego e miséria que assolou o nosso país na década de 80 e início de 90.

Grande abraço a todos,
Seja Independente


domingo, 28 de abril de 2019

Regime de Capitalização


Olá pessoal,

  Hoje eu irei falar um pouco mais sobre um tópico específico da Reforma da Previdência, assunto que está no topo da lista de pautas que impactam a sociedade brasileira atualmente. Então nada mais oportuno do que falar um pouco mais sobre todos os pontos envolvendo a Reforma da Previdência.
  Assim como eu tratei sobre esse ponto da reforma no artigo publicado em dezembro de 2018 intitulado “Reforma da Previdência não resolve o seu problema”, irei tratar também hoje, mas de uma forma mais aprofundada. Conforme constatado na entrevista do economista chileno citado no artigo, na imprensa e nos debates ocorridos na CCJ da Câmara (para quem acompanha sempre que possível sabe do que estou falando), o regime de capitalização implantado na época da ditadura de Augusto Pinochet não surtiu o efeito desejado, ou seja, os aposentados chilenos, em sua maioria, estavam recebendo pensões abaixo de um salário mínimo. Quando os deputados da oposição argumentaram isso ao criticar o regime de capitalização durante a sessão com o Ministro da Economia Paulo Guedes, o mesmo replicou dizendo que esse regime permitiu um aumento da renda per capita chilena. Enfim, sempre haverá o lado positivo e o lado negativo, pois nada é perfeito. Mas a minha intenção aqui não é discutir essa questão da eficácia do regime, e sim discutir a relevância desse regime para os futuros segurados da Previdência Social.
  Vamos supor que a Reforma da Previdência seja aprovada no Congresso com pouca desidratação, permitindo a implantação futura do regime de capitalização para as futuras gerações. Então ao invés de continuar esse regime atual de repartição, onde os trabalhadores que estão na ativa contribuem para a Previdência para que essa possa pagar os atuais aposentados e pensionistas, seria implantando um regime onde os trabalhadores ativos contribuem para a própria conta de previdência deles, como se fosse uma espécie de poupança. Lá na frente, depois de ter contribuído por décadas para essa conta particular, esse trabalhador aposentado começará a receber o salário de aposentadoria mensalmente resgatado dessa conta particular dele, da mesma forma como funcionam as aposentadorias de previdência privadas ofertadas pelas instituições financeiras. Dito isso, questiono vocês leitores: caso esse regime seja implantado, por que o trabalhador não aprende a formatar uma carteira previdenciária sem a ajuda de terceiros ao invés de delegar a sua poupança “forçada” para o governo que, como todos nós já sabemos, é contumaz em iludir os trabalhadores com falsas promessas de garantir uma velhice sustentável para cada um de nós, seja porque desvia os recursos previdenciários para outras finalidades (o mais comum) ou porque não sabe gerenciar os recursos? Mesmo que o trabalhador seja compelido a contribuir para esse sistema nos primeiros empregos, não é prudente contar apenas com essa poupança para garantir uma aposentadoria digna que possa prover minimamente todas as necessidades básicas. Vide o que aconteceu no Chile. É necessário que se dissemine urgentemente uma cultura de poupança e investimento no nosso país, para que o trabalhador não dependa apenas da Previdência Social. Arrisco a dizer que daqui a algumas décadas em muitos países o sistema de seguridade social terá condições de pagar apenas o valor correspondente a um salário mínimo para cada cidadão, pois a tendência no mundo é que o desemprego aumente em virtude do avanço tecnológico, reduzindo drasticamente a capacidade contributiva de muitos trabalhadores, e também demandando muito do sistema de seguridade através de políticas sociais protetivas para as pessoas desempregadas ou que vivem na informalidade.
  Enfim, é necessário que se compreenda que o risco futuro de um colapso global dos sistemas de seguridade social é iminente. À medida que mais pessoas no mundo vivam mais anos na velhice e sem condições de contribuir, com menos pessoas nascendo para compor a força de trabalho que irá contribuir para o sistema, mais inviável será a sobrevivência dos sistemas de seguridade, forçando centenas de milhões de pessoas no mundo inteiro a pouparem mais para que possam investir mais e com sabedoria.


Abraços,
Seja Independente

sábado, 23 de março de 2019

Um pouco sobre o caso “Betina”


Olá pessoal,
                                   
  Hoje irei comentar um pouco sobre um vídeo da Empiricus que viralizou na mídia brasileira, onde uma moça jovem, loira, de olhos claros e com um bom papo, chamada Betina, afirma ter iniciado os seus investimentos com um aporte de R$1.520,00 e 3 anos depois alcançou um patrimônio de R$1.042.000,00.



Betina Rudolph da Empiricus


  Pois bem, antes de mais nada gostaria de deixar bem claro que se trata de mais uma jogada de marketing agressiva da empresa Empiricus. Para quem não ainda não conhece, se trata da talvez maior empresa de análise de investimentos do país que sobrevive por meio de assinaturas com diversos clientes pessoa física, cuja atividade é produzir relatórios (as chamadas newsletters) sobre os diversos tipos de investimentos e enviar para os seus clientes. No caso, ela recomenda alguns ativos específicos e expõe todos os argumentos possíveis para tal nesses relatórios. Como a própria Betina explicou em diversas entrevistas nos meios de comunicação após a repercussão fenomenal do vídeo, a Empiricus precisa chamar a atenção das pessoas de alguma forma para que elas possam ter algum interesse em assinar o pacote de serviços dela, pois caso contrário elas continuarão investindo os seus parcos recursos poupados nos bancos, seja na caderneta de poupança ou nos fundos de renda fixa com taxas abusivas, cuja rentabilidade, nós já sabemos, é pífia.






  Acredito que seja do conhecimento da maioria dos investidores que a Empiricus tem problemas com a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e com o PROCON (Promotoria de Defesa do Consumidor), em virtude de algumas recomendações de ativos específicos e de seu marketing agressivo. Mas não pretendo entrar no mérito da questão. Apenas quero dizer uma verdade latente que não quer se calar e deve ser dita para todos os brasileiros ouvirem, que é a seguinte: a repercussão inesperada desse vídeo, que eu considero comum, expõe a prova inconteste de que a sociedade brasileira padece de uma falta de educação financeira tremenda. Muitos falam em “ingenuidade”. Mas essa ingenuidade decorre justamente da nossa falta de educação financeira. Ora bolas, como pode uma parcela da nossa sociedade supor que um único aporte de R$1.520,00 investido durante um prazo de 3 anos pode se transformar em R$1.042.000,00? Nem o melhor investidor do mundo de toda a história da humanidade conseguiria tal façanha. Isso é totalmente impossível. Os únicos caminhos possíveis para realizar tal feito seriam: apostar várias vezes na loteria, apostar em diversos jogos no cassino e investir em um negócio totalmente disruptivo, como foi o caso dos fundadores do Facebook e da Amazon, e ainda assim contando com muita sorte em todas essas opções.
  Após a repercussão do vídeo, Betina concedeu várias entrevistas nos meios de comunicação para explicar ao público leigo como conseguiu atingir a marca de 1 milhão de reais de patrimônio. Ela afirmou que começou com um aporte de R$1.520,00, mas na época tinha diversas fontes de renda e, sendo assim, continuou aportando mensalmente e investindo majoritariamente em uma carteira diversificada de ações. Vamos supor que ela tenha conseguido investir em média 4 mil reais por mês ao longo desses anos, além do dinheiro que ela alega ter recebido do pai. Isso daria um montante de 180 mil reais investidos. Ela afirmou que possuía uma carteira de 20 ações. Vamos supor também que ela tenha investido nas ações que mais se valorizaram nos últimos anos seguindo recomendações da Empiricus, como foi o caso de Magazine Luiza, Vulcabras, Rumo, RaiaDrogasil, Unipar, Fibria, Braskem e várias outras. Se a carteira dela tiver performado muito acima do Ibovespa, com uma rentabilidade acumulada de, digamos, sei lá, 500%, isso já transformaria aqueles 180 mil investidos em 900 mil reais. Percebam que é perfeitamente factível atingir tal patamar financeiro através de aportes mensais em ações de forma disciplinada. E ela ainda conta com uma grande vantagem a favor dela, que é a idade. Ela tem apenas 22 anos! Ainda tem muito tempo pela frente para errar, aprender com os erros e aumentar ainda mais o seu patrimônio.
  Mas eu quero lembrar aos colegas investidores que rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura, tudo que sobe depois desce, assim como tudo que sobe exageradamente também desce da mesma forma, portanto caso a carteira de Betina seja composta por essas ações que performaram bem acima do Ibovespa, provavelmente vai performar abaixo do Ibovespa nos próximos anos e, sendo assim, ela terá que girar a sua carteira aumentando os seus custos e gastando mais tempo analisando outras empresas. Por isso defendo a minha postura conservadora nos investimentos, pois é muito melhor uma carteira que performe a uma taxa razoavelmente boa, sem ser excepcional, ao longo do tempo, do que uma carteira que performe de forma excepcional no curto prazo, mas no longo prazo não consiga manter essa performance. Mas apesar desse importante detalhe, ainda acho que Betina está no caminho certo. Independente da estratégia adotada, ela assim como outros investidores estarão numa situação financeira bem mais confortável no futuro do que a daqueles brasileiros que não se preocupam com a sua própria previdência.





  Na boa pessoal, falando sério, eu acho muito bom quando esse tipo de vídeo repercute na mídia nacional, independente de ter sido de uma forma negativa. Pois de certa forma acusa um problema crônico que atinge a sociedade brasileira de uma forma geral, independente de classe social, que é a falta de educação financeira e o consequente desinteresse em aprender mais sobre investimentos financeiros, que não seja a caderneta de poupança e os imóveis. Para corroborar o que estou falando, basta pesquisar sobre a quantidade de pessoas físicas brasileiras que investem na Bolsa de Valores, são um pouco mais de 1 milhão de pessoas, num país com 200 milhões de habitantes. E, sinceramente, na minha opinião, essa justificativa de que a renda média do brasileiro não o permite acessar esses investimentos em Bolsa é pura besteira, puro vitimismo, puro comodismo. Para vocês terem uma ideia, segundo a própria Betina numa entrevista concedida a um veículo de comunicação, na Colômbia existem 3 milhões de investidores em Bolsa e esse país possui uma população 4 vezes menor do que a do Brasil, ou seja, 6% da população colombiana já investe em Bolsa. E aqui esse percentual é de pouco mais de 0,5%. Na maior economia do mundo, esse percentual é de 70%.
  Eu espero, como brasileiro, que mais repercussões como essa surjam, para que os brasileiros de todas as classes sociais enxerguem o potencial da nossa Bolsa de Valores, que não é aproveitado em toda a sua plenitude.

Abraços,
Seja Independente